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Trabalho, Humanidade e Meio Ambiente.

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Henry Mora Jimenéz – Costa Rica –

 

Palestra proferida no XIV Conanat – MANAUS

 

 

Sei que muitas pessoas, organizações, instituições e empresas tornaram possível a realização desse evento.

Humanidade, trabalho e meio ambiente. Quem sabe deveria se agregar a esses termos a “era da globalização”, porque, certamente, é preciso fazer comentários sobre temas tão básicos, é precisar o período histórico em que vivemos.

 

Também é preciso mencionar uma palavra que sintetiza esses três termos - humanidade, trabalho e meio ambiente - essa palavra é: vida. Efetivamente, quero fazer meus comentários sobre o tema de fundo desse congresso a partir do tema “vida”. Todos temos perguntado, em algum momento de nossa existência, qual é o sentido da vida? Não se preocupem não irei fazer explanação sobre questões espirituais. Estou comovido em estar aqui nessa região tão vasta do Brasil, porque ela tem muita relação com a vida humana.

 

Quero falar desde a perspectiva da vida, mais especificamente, a partir da afirmação da vida. Porque sentimos que, hoje, a vida humana, em particular, está profundamente ameaçada. Então, o tema da humanidade deve ser apresentado a partir do exame de um conjunto de ameaças globais que enfrentamos hoje em dia e que demandam uma nova responsabilidade e cultura, se quisermos superá-las. Perguntava, anteriormente, qual o sentido da vida? Começo a responder de forma simples e direta. Para mim, o sentido da vida é vivê-la, simplesmente viver a vida. Mas seria somente isso? Estou tentado a agregar a esse conceito simplista, algumas condições como viver a vida com responsabilidade, com harmonia, buscando a verdade, a sabedoria. Sem embargo, o ponto de partida que quero apresentar-lhes não é a vida em geral, mas a afirmação, a aceitação de que no atual estágio em que nos encontramos, a vida humana se encontra ameaçada. Por isso quero partir dessa afirmação: ameaçada, não simplesmente por ameaças que temos sofrido por décadas e séculos anteriores; mas de ameaças que temos criado, nós mesmos, esta geração, a anterior nos últimos cinqüenta e sessenta anos. É de nossa responsabilidade responder a essas ameaças.

Isso nos leva ao tema da globalização.

 

A vida diária e a consciência cotidiana já não se expressam de maneira contundente; o mundo se fez global. O sentido geral desse fenômeno – o da globalidade que não é o mesmo que globalização – e o desenvolvimento tecnológico da última técnica tem feito com que chegássemos à consciência da globalização. A globalidade tem conduzido o ser humano a uma consciência efêmera. Trata-se de uma vivência de globalidade que tem implicado um corte histórico e que a humanidade teria que distinguir a história presente de toda a história humana anterior. A palavra globalidade temos que ter presente porque isso tem implicação no estudo e na análise da globalização.

Os últimos quinhentos anos têm gerado conseqüências que hoje são sentidas com mais muito mais intensidade. Na última década passamos a sofrer ameaças que, no entanto, se fizeram sentir com mais intensidade em 1945, com o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. Com a bomba atômica, surgiu a primeira arma global, porque seu uso futuro comprometia a existência da própria vida humana. Durante 30 ou 40 anos a humanidade viveu sob a ameaça da guerra nuclear. A primeira ameaça sobre a qual tivemos consciência foi a bomba de Hiroshima. Nesse momento, começou a surgir uma nova consciência sobre a finitude dos recursos da terra e a fragilidade da vida humana.

 

Devemos assumir uma responsabilidade que até há pouco tempo não era sentida como necessária e que há séculos atrás só poderia ser sonhada. Refiro-me à responsabilidade pela vida. É uma condição de possibilidade que deve se integrar a uma única exigência. Mesmo apesar de que todo o tempo, a concepção positivista se divida entre ser e dever ser. A morte e a devastação em escala planetária causadas pela guerra após o lançamento da bomba atômica, alertaram, pela primeira, vez sobre a possibilidade real de uma crise apocalíptica não pela fúria de um criador, mas pela ação dos seres humanos. O genocídio atômico aparecia como algo aparentemente externo à ação humana cotidiana como um recurso trágico e extremo a que os EUA lançou mão para por fim a uma guerra fratricida. A crise dos mísseis em Cuba, em 1963 pôs em xeque essa pretensão. Porém, a bomba atômica era a primeira ameaça global de que nos recordamos. Contudo, desde os anos setenta, novas ameaças globais se fizeram presentes.

 

Primeiramente, por intermédio do chamado informe do Clube de Roma, sobre os limites do crescimento mundial e as ameaças de uma catástrofe global. O caráter de globo terrestre e não de planície, suportável à exploração dos seres humanos, já nos anos setenta, provocava os debates sobre os efeitos dessa movimentação da humanidade. E, conseqüentemente, do aquecimento global que, como sabemos, descongela os pólos terrestres. E isso decorre da ação humana. É certo que, no passado, as crises fizeram desaparecer espécies terrestres e estas foram causadas por fatores climáticos. O elemento central que está causando o aquecimento global é a própria ação humana, diferentemente dos efeitos externos que causaram o desaparecimento de espécies, provenientes da acomodação do clima, ou mesmo, internos, a partir da extinção de espécies por seus predadores. Estamos às portas de um “ecocídio”, se permitirmos que a temperatura do planeta continue a se elevar em dois graus a cada período de cem anos. Nas últimas décadas, a temperatura acelerou em 0.8 graus, mas se a elevação for muito superior a isso, teremos uma devastação planetária, provocando que milhares de espécies de animais desapareçam. Nos anos 80, aconteceu um fenômeno de proporções globais que tenta transformar a vida em objeto de uma nova vida humana. A biotecnologia em geral e a engenharia genética, em particular, no meu sentir, também constituem ameaça global. A partir do mesmo método das ciências empíricas elas se apresentam. O método tradicional das ciências empíricas de tradição cartesiana, a segmentação, a partição e o experimento simultâneo faz com que não seja possível distinguir o desenvolvimento do conhecimento e a sua aplicação, pois ambos são a mesma coisa. Não se tem conhecimento sobre clones humanos sem fazê-los. A própria concepção da cientificidade parte da lógica de mercado.

 

Em relação ao conjunto de ameaças globais, se está desembocando em uma crise geral de convivência humana, que José Saramago expõe magistralmente. O desmoronamento das relações humanas, em curso, já afeta a própria possibilidade de nossa convivência. Quanto mais aparece a grande exclusão de vidas humanas, o relacionamento humano se degenera e dificulta a convivência. Já não será uma simples polarização entre os incluídos que mantém a capacidade de convivência com os excluídos, que as perdem, simplesmente. Por exemplo, a drogadição, a violência, a desintegração familiar, a desumanização não os exclui tanto quanto a ausência de trabalho. Se trata de uma última ameaça global que pode resultar na pior, porque incapacita os seres humanos frente à necessidade de enfrentar as outras ameaças e, finalmente, todo o conjunto de ameaças globais. A ausência de convivência humana é a mais grave das ameaças, pelas suas conseqüências desastrosas para a resistência humana.

 

Às crises dos excluídos, ecológica e da convivência humana aliam-se outras como a da fome, que nos assombra. Por exemplo, há crise de arroz quando tivemos a maior colheita do produto de todos os tempos.

 

Fica claro, então, que nossa vida se globalizou como nunca havia ocorrido na história humana. A humanidade não pode viver muito tempo sem aceitar essa responsabilidade. Agora sabemos que somos parte de uma grande cadeia de geração. Como diziam as nações indígenas “não pedimos essa trama histórica, somos apenas um elo a mais nela”.

Não se trata de uma visão pessimista da humanidade, se trata de ver onde estamos parados nesse tempo, depois de bilhões de anos de história do nosso planeta.

 

Refiro, então, algumas mudanças fundamentais no mundo do trabalho. Como colocar o dedo na ferida? A manifestação mais clara de ameaça global é a crise da exclusão, que afeta uma considerável parcela do contingente humano.

 

Temos um acúmulo de milhões de seres humanos que estão excluídos do sistema. Sobre esse tema e o que ocorre no mundo do trabalho muito se tem escrito. Quero me referir, então, a outra variante dessa jornada. Se tem trabalhado menos. O conceito de trabalho, que conhecemos e entendemos, é relativamente recente, surgindo com o capitalismo industrial. O trabalho como relação – capital trabalho – é inteiramente novo e data de 200 ou 300 anos atrás. O que predominava antigamente era o tempo de vida das pessoas, uma parte da qual se dedicava ao cultivo, a fabricar objetos, ao descanso e a recreação. Que faz o capitalismo industrial, nesse ponto: transforma a vida em trabalho, o tempo de vida em tempo de trabalho, criando a sensação ou aparência de que o trabalho pode tratar como uma mercadoria a mais, um par de sapatos, uma bolsa, um serviço de cabeleireiro, ou outra coisa qualquer. Algo similar ocorreu com a natureza. O capitalismo industrial transforma a natureza em fator de produção, em “terra”, como dizem os economistas. Qual o problema com isso? A atual estratégia de globalização neoliberal rompeu um pacto social e político: o “estado de bem estar”. A nova globalização traz uma utopia transcendental. Os programas de estabilização, ajustes estruturais, durante os anos setenta e oitenta, com a abertura dos mercados, impulsionou a flexibilização dos mercados de trabalho. toda essa estratégia pretendia apenas limpar o campo de batalha, pois a guerra econômica apenas começava. Hoje está em marcha uma estratégia mundial, conduzida pelo Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio, de fazer subordinar o trabalho conceitual. A revolução industrial subsumiu o trabalho direto, terminando por converter o trabalhador a um apêndice da máquina. Todo o trabalho é intelectual até o mais físico dos trabalhos. Uma situação similar observamos no caso do meio ambiente. Durante a primeira globalização, a que podemos chamar liberal, do século XIX, a natureza foi transformada em fator de produção, mas se trata de uma mercadoria fictícia junto ao trabalho, pois a redução do meio ambiente a uma função econômica como fator de produção, deprime as outras funções iguais ou mais válidas para assegurar as condições de reprodução da vida humana. Vamos aceitar que a natureza seja aceita como fator de produção; porém, a natureza cumpre outras funções que não podem ser reduzidas a funções econômicas. Exemplo, a biosfera é natureza, paisagem, condição, produção contra os raios ultravioleta, etc. A conversão da natureza à capital humano pretende tratar todas essas funções não econômicas, dentro de uma lógica de custo-benefício. De novo se requer uma ética de responsabilidade que assuma explicitamente que a natureza não pode ser tratada como mercadoria sob pena de pôr em perigo a própria vida humana e do planeta em seu conjunto.

 

Resumindo: podem concordar comigo, podem não concordar. Mas a raiz da problemática da relação humana, da destruição ambiental, reside na inaudita pretensão dos seres humanos tratar o trabalho como se fosse uma mercadoria a mais, assim como a natureza. São inauditas pretensões que levaria ao “ecocídio”, que nos fala Leonardo Bopp.

Breves reflexões sobre como enfrentar o problema.

 

Certamente é um problema político. Contudo, não se reduz a um assunto político. O enfrentamento inclui dimensões que vão além da política tradicional. Toda nossa cultura e civilização estão involucradas nesse desafio. É preciso desenvolver uma cultura que permita e resolva as responsabilidades com essas ameaças. O marco de uma nova esperança. A cultura da responsabilidade exige que sejamos críticos e leva-nos à resistência a esses processos de alienação e destruição do meio ambiente. A responsabilidade não é simplesmente a resistência, mas o que a conduz.

A construção do bem comum é um processo em que os valores são enfrentados em sistema concursivo para integrá-los, confundi-los e interpela-los. Tampouco deve-se tentar oferecer instituições naturais ou não. Parte do sistema tradicional em relação aos quais todo o sistema é subsidiário. A liberdade não está na lei, a justiça não está na lei ou fora da lei. Está na relação da lei com o ser humano. Na soberania do ser humano para interpelar qualquer lei que ponha em xeque as condições de reprodução da vida humana nesse planeta. A responsabilidade pressupõe a esperança, desde a qual o medo pode ser transformado em responsabilidade. O que necessitamos hoje é a responsabilidade por um mundo global marcado pelo capital. Como dizia Marx, “as revoluções são a parteira da história”. Quem sabe ele tinha razão, quem sabe não. Na época atual, prefiro parafrasear Valter Benjamin que dizia sobre revoluções: “a revolução são como freios de emergência de uma locomotiva na qual estamos e que se encaminha a toda a velocidade para um abismo”. Aplicar esse freio de emergência é a revolução da qual estamos falando hoje em dia, concluiu Mora Jiménez.

 

Por Ary Faria Marimon Filho

Para o site www.amatra4.org.br

Palestra proferida no XIV Conanat – MANAUS

30-04-2008

Bem-vindo Visitante - Porto Alegre, 13 de Outubro de 2008    -