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Discurso de Despedida

 

- Site da Amatra4 -

 

- Ary Faria Marimon Filho *

 

20 de junho de 2008.

 

Exmo. Sr.  Juiz João Ghisleni Filho, Presidente do TRT da 4ª. Região, Exmo. Sr. Dr. Cláudio José Montesso, Presidente da Anamatra, Exmo. Sr. Dr. Mozart Valadares, Presidente da AMB, Exmo. Sr. Dr. Luiz Antônio Colussi, Presidente eleito da Amatra 4, demais autoridades presentes a esta cerimônia de posse nominadas pelo protocolo, Srs. Procuradores do Trabalho, Advogados, servidores do Judiciário, familiares dos que ora tomam posse e se despedem, meus queridos colegas.

 

Se todos os discursos de despedida são emotivos e carregados de nostalgia, esse não fugirá à regra. Em compensação, irei privá-los dos “breves relatos”, com que os meus colegas de diretoria acostumaram-se a ouvir. Mas se esse discurso não fugirá à regra, permitam-me quebrar o protocolo de forma a torná-lo menos emotivo possível para mim.

 

Resolvo iniciar pelos agradecimentos por acreditar, piamente, que agradecer no início do discurso, é meio caminho andado para não terminá-lo com a voz embargada ou, o que é pior, afogado em lágrimas. Quero externar minha gratidão pela compreensão, solidariedade e apoio à minha amada esposa Marilise e às três lindas rosas do meu jardim, Anna Luiza, Gabriela e Giovanna, que souberam manter certa distância quando as coisas estavam difíceis e, de outro lado, compartilhar dos momentos de intensa alegria vivenciados pelo seu marido e pai, quando das conquistas e vitórias obtidas pela Amatra4. A elas dedico a frase que conheci, recentemente, no impactante “Na natureza selvagem”, de Sean Penn: “A felicidade só é completa, quando compartilhada”.

 

Meus mais sinceros e profundos agradecimentos aos empregados da AmatraIV, Silvana, Douglas, João, Carlos e Dalva, pela atenção que me foi dispensada nesses três anos, embora tenha presente – e todos assim o têm– que essa atenção é dispensada, de igual forma, a todos os associados da AmatraIV. Agradeço às jornalistas Elaine e Isabel pela paciência – e como elas tiveram! – durante toda essa jornada.

 

Ao Presidente João Ghisleni Filho, os agradecimentos são extensíveis aos seus antecessores, Denis e Fabiano, permanecendo comigo a certeza de que essa diretoria fez o possível para que eventuais e raros antagonismos, que são próprios e típicos de relações institucionais dessa natureza, não se constituíssem em empecilho para que a AmatraIV e o TRT da 4ª. Região cerrassem fileiras na busca de soluções que aumentassem, ainda mais, a excelência da Justiça do Trabalho do RS.

 

Quero agradecer aos colegas de Diretoria, pois desde sempre acreditei que se cada um desse apenas uma idéia ou executasse um projeto, já teria valido a pena a sua companhia. Em especial, aos integrantes da Executiva, Colussi, Andréa, Eduardo, Rubens e Carmen, que no cotidiano demonstraram maturidade, lealdade e fidelidade, atitudes fundamentais para o sucesso de um sistema de gestão baseado na composição plural.

 

Aliás, na magistratura, apenas a AmatraIV e a Associação dos Magistrados do Uruguai possuem semelhante sistema de gestão. Talvez isso também tenha influenciado para que nós nos aproximássemos do Uruguai, a ponto de estarmos em vias de celebrar um convênio com a Universidad de La República – perdoe-me, Colussi, esse é o único “furo” que me aventuro a cometer. Mas a citação é importante para iniciar o encerramento do discurso.

 

Pretendo dizer-lhes breves palavras, partindo de três pequenos textos de um dos autores contemporâneos que melhor retratam a globalização, não à toa, uruguaio de nascimento.

 

Em 1997, Eduardo Galeano escreveu “O Direito de sonhar”:

 

“Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

 

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.


Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.


O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.


Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os que quiserem se alistar.


Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.


Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.


Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostam de ser invadidos.


Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostam de encher a barriga de promessas.


O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para todo sempre.


Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.


Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.


A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.


Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.


A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

 

Nós, Juízes do Trabalho do Rio Grande do Sul, sonhamos muito durante esses anos todos, e não cansamos de sonhar, ou melhor, mesmo que não queiramos sonhar, sonhamos. E assim continuaremos até que se deixe de publicar anúncios semelhantes ao também retratado por Galeano, retirado de jornais uruguaios de 1840, no Uruguay:

 

Vende-se:

- uma negra meio focinheira, de nação cabinda, na quantidade de 430 pesos. Tem noções sobre como costurar e engomar.

- um carro, por quinhentos patacões, ou se troca por uma negra.

- uma negra, de idade de treze a quatorze anos, sem vícios, de nação bangala.

- um mulatinho com onze anos de idade, com princípios de alfaiate.

- uma negra com poucos dias de parida. Não tem criatura, mas tem abundante e bom leite.

- um leão, manso como um cão, que come de tudo, e também uma cômoda e uma caixa de mogno.

- uma criada sem vícios nem enfermidades, natural do Congo, com dezoito anos de idade, um piano e outros móveis, a preços cômodos.

 

O detalhe é que a abolição já havia sido proclamada naquele país em 1813, vinte e sete anos antes.

 

É impossível a nós, juízes do trabalho, sobrevivermos sem sonhar e sem lutar, permanentemente, para que as desigualdades desapareçam. Está em nosso DNA. E para que isso aconteça, ou seja, para que não se publiquem anúncios intempestivos e atemporais, como diz Jorge Drexler, é preciso andar, “pie detrás de pie, pues no hay otra manera de caminar.

 

É preciso repetir que a memória é o último elo que nos liga à pureza dos propósitos. Acho que não me afastei da imperiosa necessidade de preservar a memória dos que me antecederam, sempre salientando que a história da Amatra4 teve início pela necessidade da luta corporativa, e, ao mesmo tempo, de resistência ao regime que a circundava. E a memória não pode ser apagada, como Charlie Kaufman nos revela em “Brilho eterno de uma mente sem lembrança”. Ou, como confessaria Galeano, nessa breve síntese:

 

Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor de água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero".

 

Prometi três textos de Galeano, mas na verdade eram quatro. O último guardei para desejar a essa diretoria toda a sorte do mundo (embora eu acredite que tenha recebido boa parte dela, nesses últimos dois anos). E também para fechar esse discurso em cinco páginas e exatos 9.917 caracteres (com espaços), cumprindo compromisso assumido com o protocolo. E cito o texto também por acreditar que ele é a melhor expressão da necessidade de união para a luta.

 

Um homem do povo de Neguá, na costa de Columbia, pôde subir ao alto céu. À volta, contou. Disse que tinha contemplado, de lá de cima, a vida humana. E disse que somos pequenas chamas. – O mundo é isso – revelou -. Um montão de gente, um mar de pequenas chamas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as demais. Não há dois fogos iguais. Há fogos grandes e fogos pequenos e fogos de todas as cores. Há gente de fogo sereno, que não se abala com o vento, gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam; mas outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem piscar, e quem deles se aproxima, simplesmente, se acende.

 

Muito obrigado!

 

 

 

*Ary Faria Marimon Filho, ex-Presidente da Amatra4, é Juiz Titular da 2a. Vara do Trabalho de Bento Gonçalves.

Bem-vindo Visitante - Porto Alegre, 13 de Outubro de 2008    -